A Black Friday, como evento de grandes promoções, surgiu nos Estados Unidos por volta da década de 1980 e rapidamente se tornou um fenômeno global. O Brasil, por sua vez, aderiu a essa data comemorativa de descontos a partir de 2010.
No entanto, ao considerarmos as diferenças socioeconômicas e as estruturas de mercado entre os dois países, surge a dúvida: será que a Black Friday no Brasil oferece as mesmas oportunidades de descontos que em solo norte-americano?
A realidade por aqui é bem diferente, e diversos fatores explicam as discrepâncias entre as expectativas e as ofertas reais.
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Nos Estados Unidos, a Black Friday é um evento de compras majoritariamente realizado em lojas físicas.
Esse formato gerou uma cultura de tumultos, com consumidores se aglomerando nas portas das lojas ainda antes da abertura para garantir os descontos.
Há inúmeros vídeos na internet que viralizaram, mostrando multidões desesperadas tentando aproveitar as promoções.
Esse comportamento reflete uma cultura de consumo bastante específica, onde o desconto está diretamente relacionado ao tempo de espera nas filas e à disputa por produtos escassos.
Por outro lado, no Brasil, a dinâmica de compras na Black Friday é mais voltada para o ambiente digital.
Grandes varejistas como Magazine Luiza, Casas Bahia e Americanas se destacam nesse contexto, oferecendo descontos em lojas online.
Esse formato proporciona maior comodidade, mas também impõe desafios. A prática de realizar compras online elimina o fator de escassez física, mas mantém a pressão para conseguir produtos com preços mais baixos.
Outro aspecto que diferencia as duas realidades é a finalidade das compras. Nos Estados Unidos, o principal objetivo das promoções da Black Friday é antecipar as compras de Natal.
Os consumidores aproveitam os descontos para adquirir presentes, o que faz com que a alta demanda e os descontos substanciais ajudem a distribuir as despesas do mês de dezembro.
Para os norte-americanos, portanto, a Black Friday é uma maneira de alavancar o consumo de presentes para amigos e familiares, reduzindo a pressão financeira no mês seguinte.
No Brasil, porém, o perfil de compra é bem diferente. Embora algumas pessoas aproveitem a Black Friday para adquirir presentes, a grande maioria utiliza o evento para comprar produtos de uso pessoal, como celulares, eletrodomésticos e notebooks.
Nesse contexto, o “presente” é para o próprio comprador, e o que se busca é a oportunidade de adquirir itens de consumo diário com preços mais baixos, o que faz com que a expectativa sobre os descontos seja bastante alta, mas, muitas vezes, frustrante.
Nos Estados Unidos, é comum encontrar descontos de até 90% em diversos produtos, o que torna a Black Friday uma data altamente atrativa para os consumidores.
No Brasil, entretanto, as promoções ultrapassam raramente os 60% de desconto, e, muitas vezes, os consumidores se deparam com ofertas que não são tão vantajosas quanto parecem.
A grande razão para essa diferença está diretamente relacionada à carga tributária brasileira.
O Brasil é conhecido por ter uma das mais altas cargas tributárias do mundo, e isso impacta diretamente o preço final dos produtos. Itens como eletrônicos e eletrodomésticos, os mais procurados durante a Black Friday, possuem uma tributação que pode chegar até 70%.
Esse elevado índice de impostos significa que, muitas vezes, o Estado arrecada até três vezes mais do que o empresário que está oferecendo o produto.
Dessa forma, o desconto que poderia ser oferecido aos consumidores é limitado, já que o preço do produto já está altamente inflacionado pelos impostos.
A alta carga tributária não só reduz a margem de lucro dos empresários, mas também impacta negativamente na possibilidade de oferecer descontos significativos.
Com os impostos sendo pagos em cima de cada produto, o valor final para o consumidor acaba sendo inflacionado, limitando a competitividade e o alcance das promoções.
No Brasil, um dos maiores impactos é observado nos eletrodomésticos e produtos eletrônicos, itens com alta incidência de impostos.
Nesse cenário, um desconto de 60% já é considerado uma grande vantagem, mas na realidade, esse desconto pode ser quase insignificante diante da carga tributária, que impede que os empresários pratiquem uma redução mais agressiva nos preços.
Apesar das limitações impostas pela carga tributária e das promoções mais tímidas, a Black Friday no Brasil ainda é um evento importante para a economia.
No ano de 2024, a movimentação de vendas na Black Friday brasileira superou os R$ 4 bilhões, demonstrando o potencial do consumo em períodos de grandes descontos.
Em um cenário de instabilidade econômica e recessão, esse aumento nas vendas pode ser um alívio, trazendo benefícios não apenas para o setor de varejo, mas também para a economia na totalidade, ao impulsionar o consumo e gerar empregos temporários.
No entanto, é importante destacar que o real benefício para o consumidor é limitado pela estrutura tributária do país.
Embora a Black Friday tenha se consolidado como um dos maiores eventos de compras no Brasil, os reais benefícios dessa data são comprometidos pela carga tributária elevada, que dificulta a possibilidade de promoções significativas.
O grande culpado pela limitação dos descontos na Black Friday brasileira é, sem dúvida, o próprio Estado.
A alta carga tributária, que impacta diretamente no preço dos produtos e na margem de lucro dos empresários, cria um cenário no qual as empresas não conseguem oferecer descontos maiores, porque simplesmente não há margem para isso.
Enquanto isso, o Estado, por meio dos seus impostos, lucra muito mais com o produto do que o próprio empresário.
Em resumo, a Black Friday no Brasil pode ser uma boa oportunidade para os consumidores, mas os benefícios estão aquém das expectativas.
Para que as promoções realmente possam ser mais vantajosas, é necessário haver uma revisão da carga tributária, o que permitiria aos empresários oferecer descontos mais agressivos e, consequentemente, gerar um impacto ainda mais positivo na economia do país.
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