Alckmin e a incoerência do discurso

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Quem teve a oportunidade de acompanhar a política nacional nos anos 1990 e 2000 presenciou de perto a ferrenha rivalidade entre PT e PSDB. Essa disputa consolidou a imagem do Partido da Social-Democracia Brasileira como o principal antagonista dos petistas, ainda que o próprio PSDB, em seus estatutos, jamais se declarasse oficialmente um partido de direita.

A rotulagem foi intensificada pela mídia, sobretudo durante os dois mandatos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, cuja agenda de privatizações e abertura econômica conferiu ao PSDB o rótulo de “neoliberal”, ainda que o neoliberalismo, por si só, não seja uma ciência política formalmente estruturada.

Durante quatro eleições presidenciais consecutivas, o maior adversário do PT sempre foi um tucano: José Serra (2002), Geraldo Alckmin (2006), José Serra novamente (2010) e Aécio Neves (2014). Nessas campanhas, a estratégia foi clara: troca de farpas, acusações mútuas de corrupção e de práticas populistas. 

O antagonismo era central para a identidade política de ambos os lados, algo que só se alterou com o surgimento de Jair Bolsonaro em 2018, um fenômeno que merece análise à parte.

No entanto, a política brasileira mostra, mais uma vez, que princípios muitas vezes cedem espaço para interesses. A surpreendente aproximação de Geraldo Alckmin com Lula para as eleições de 2022 expõe, de forma contundente, a tese do “vale-tudo” pela conquista do poder. A justificativa apresentada, de que seria necessário “restabelecer a democracia”, soa tão artificial quanto conveniente, ignorando que o Brasil já vive um regime democrático.

Alckmin, outrora um crítico severo de Lula, agora se mostra disposto a subir no mesmo palanque. Em 2017, ao assumir a presidência nacional do PSDB, não poupou críticas ao ex-presidente: “O Brasil vive uma ressaca, descobriu que a ilha da fantasia petista nunca foi a terra prometida. 

A ilusão petista acabou em pesadelo, na maior crise econômica e ética da história do nosso país”. O que mudou desde então? A resposta parece simples: a política, em muitas ocasiões, transforma princípios em moeda de troca. A saída de Alckmin do PSDB, partido ao qual foi filiado por décadas, também não apaga seu histórico de embates contra o PT. 

Tampouco sua nova filiação modifica que ele, durante anos, sustentou um discurso contrário à volta de Lula ao poder. 

O que se observa, na prática, é uma estratégia eleitoral: enquanto Lula mantém sua força no Nordeste, Alckmin poderia agregar votos nas regiões sul e sudeste, especialmente em São Paulo, onde construiu sua carreira política.

A realidade é que o cenário brasileiro atual não é inédito. Se observarmos outros momentos da história política nacional, veremos alianças improváveis costuradas em nome da “governabilidade” ou da “salvação da democracia”. 

Em 1989, por exemplo, a esquerda se uniu para apoiar Fernando Collor no segundo turno contra Lula, ironicamente, o mesmo Collor que depois seria alvo de impeachment. A história mostra que, no Brasil, as rivalidades são muitas vezes apenas superficiais, e os acordos de bastidor moldam o verdadeiro jogo do poder.

O caso Lula-Alckmin apenas reforça essa tradição. Fica claro que, na política brasileira, valores e coerência ideológica frequentemente são descartáveis. O que importa, ao fim e ao cabo, é o acesso ao poder, ainda que isso custe a própria história, a credibilidade e os discursos de outrora.

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