A hipocrisia da classe artística

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Ficamos meses sem poder ver aqueles que amamos, nos impuseram a obrigação de utilizar máscara para sair de casa, falaram que deveríamos higienizar as mãos diversas vezes ao dia e andar com um vidro de álcool em gel sempre que fôssemos à rua. 

Vimos diversas pessoas perderem os empregos e nos disseram que a economia a gente via depois e o importante era salvar vidas.

Entretanto, o Carnaval se aproxima e uma nova variante do coronavírus ameaça o mundo e mesmo países que já atingiram quase 100% da população vacinada têm adotado medidas de restrição, mas parece que dessa vez os discursos de “fica em casa”, “a economia a gente deixa para depois” e “Bolsonaro genocida”, não estão mais no vocabulário artístico.

Recentemente, a cantora Cláudia Leite, fiel defensora das medidas restritivas durante a pandemia, realizou um show para milhares de pessoas aglomeradas e sem máscara. 

Qual o intuito então de exigência de uso de máscara obrigatória em locais públicos, sendo que artistas realizam diariamente eventos em que as pessoas estão em total descumprimento às medidas sanitárias de combate ao vírus? Se não ficar restrito nesse momento, vamos apenas entender que todo esse discurso não passa apenas de uma farsa.

Enquanto diversos países e até mesmo o nosso tem adotado medidas de barreira sanitária, impedindo que países contaminados pela nova variante e epidemiologistas, já alertam o período das festas de carnaval, os principais sites de blocos e camarotes já esgotaram diversos lotes para a festa de 2022, que pode comprometer a realidade da saúde brasileira mais uma vez.

Nesse sentido, o sentimento de quem, com muita dificuldade, conseguiu se recolocar no mercado de trabalho é de tensão, visto que a parcela de pessoas mais afetadas, nem sequer sabem o que é um camarote de carnaval em Salvador ou no Rio de Janeiro. A única coisa que sabem é que quando a fome aperta não há para onde correr.

O próprio carnaval de 2020 não deveria ter sido realizado, visto o risco eminente diante dos diversos turistas do mundo inteiro que aqui estavam no país, sobretudo os do continente europeu, em que o vírus já se alastrava e a pandemia era uma realidade.

Ainda assim, a festividade foi mantida, colocando a euforia acima da precaução. A negligência com o cenário internacional e a ausência de medidas preventivas contribuíram para que o vírus se espalhasse rapidamente pelo Brasil, marcando o início de uma crise sanitária sem precedentes. 

Essa decisão, tomada sob a lógica do imediatismo econômico e político, escancarou a falta de responsabilidade das autoridades diante de um risco global iminente.

Diante de tudo isso, é impossível não perceber a incoerência gritante entre o discurso moralista adotado por parte da classe artística durante o auge da pandemia e suas atitudes quando os holofotes se voltam novamente para os grandes eventos. 

O que era apresentado como um apelo à responsabilidade coletiva, hoje soa como conveniência seletiva. A mesma voz que ecoava por isolamento, distanciamento e empatia agora silencia diante da possibilidade de lucro, visibilidade e prestígio em festas e shows lotados. 

Fica claro que, para muitos, o “fique em casa” só valeu enquanto era politicamente rentável ou socialmente vantajoso.

A verdade é que quem mais sofreu — o trabalhador comum, que perdeu renda, saúde e dignidade — continua sendo o mais penalizado. A pandemia escancarou desigualdades e testou a coerência de discursos. 

E o que se viu foi uma elite artística que cobra empatia do povo, mas não se dispõe a praticá-la quando ela exige sacrifícios reais. 

Essa hipocrisia não apenas mina a confiança nas orientações coletivas, como também fragiliza o senso de justiça que deveria unir a sociedade em momentos de crise. E, no fim, sobra para o povo — mais uma vez — a conta de um espetáculo que nunca foi feito para ele.

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Mateus Vitoria Oliveira

CEO Private Construtora, Private Log e Private Oil & Gas
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